sexta-feira, 30 de abril de 2010

Romantismo?

Dia desses, sem nenhum motivo relevante, comecei a me lembrar de algumas coisas legais da aurora da minha vida - a minha infância querida, que os anos não trazem mais... Não, não divagava sobre bananeiras ou laranjais, embora o quintal da casa de meu avô tivesse árvores frutíferas para vários paladares. Aliás, só fiz referência ao poema porque pensava em como, naqueles tempos, a informação era algo difícil de se encontrar, sendo necessário, muitas vezes, "puxar pela memória".
Lembro que eu frequentava a casa de um tio, que possuía escritos e figuras que normalmente me surpreendiam. Foi lá que vi, pela primeira vez, ilustrações de Escher, em que as escadas e as águas das corredeiras subiam não só para cima, como para baixo e para os lados (perdão, a redundância foi necessária); foi onde decifrei o desenho da senhorita que se transformava no rosto de uma velha, se eu olhasse como "zarolho"; e fiquei intrigado com o rosto do barbudo careca, que, visto de cabeça para baixo, era um rapaz cabeludo e de cara lisa. Lá, pude ler textos elegantes, porém capciosos: se eu saltasse as linhas pares, dava de cara com frases tão cabeludas quanto o rapaz do desenho...
Lembro também da casa de um primo meu, em que a decoração da sala era o rosto de Jesus feito numa máquina de datilografia. E da casa de uma tia, desbocada que só ela, onde, na inocência dos meus seis anos (esperavam que eu dissesse "Meus oito anos"?), vi pela primeira vez alguns catecismos de Zéfiro disponíveis em lugares inusitados...
Mais: havia a gráfica de meu tio Gutemberg (não é trocadilho), que costumava ser nosso fornecedor de chavões ditos por pessoas ilustres. E, por fim, a casa de meu avô, que, além das frutas sob eterna vigilância da governanta, possuía uma pequena biblioteca sob eterna vigilância da madrasta de minha mãe. Como era difícil levar emprestado o "Thesouro da Juventude"...
Não por acaso, era um tempo em que ser fonte fidedigna de "cultura" - útil ou inútil, conforme a roda de amigos que se frequentasse - era algo digno de elogios. O sujeito virava fonte de referência... Hoje, tudo ficou tão fácil que chega a perder a graça. Basta googlar "aurora da minha vida" (com as aspas) que aparece "Casimiro de Abreu" (sem as aspas). Digite "Escher", e as escadas ninja aparecem. ASCII Art é coisa que se acha facim, facim - o mesmo se aplica a foto de mulher nua.
Os e-mails vivem nos trazendo textos os mais variados: carismáticos, espirituais, espirituosos, leves, cultos, pretensamente cultos, marotos, carregados de princípios morais, piedosos ou repletos de boas intenções - das quais, segundo consta, o Inferno anda cheio. Isso sem falar nos desenhos (que, por infelicidade, chegam invariavelmente em formato PowerPoint).
Como o diabo se esconde nos detalhes, nossa enciclopédia virtual também tem um "porém": as fontes nem sempre merecem crédito - o que vale tanto para os sites que o Google nos retorna (sim, isso também vale para o Wikipedia), quanto para os remententes originais das mensagens que os conhecidos nos repassam. Além do mais, a carga de informação é tamanha que, muitas vezes, nem percebemos que fizemos uma descoberta. O que é uma pena, pois, como acontece com as frutas roubadas no quintal, a aventura de colhê-las costuma torná-las mais saborosas.

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