sábado, 12 de junho de 2010

E Rio de Contas perde um ícone.




Tinha nome e apelido. O nome de batismo: Escrava da Natureza. O apelido: Nega de Zofir. Eu, molequinho, quando acontecia de descer a serra com meus pais, sabia que estava chegando a Livramento quando via a cachoeira; e que Rio de Contas estava perto, quando via a Nega de Zofir, com seu gorro vermelho e cachimbo na boca. Mesmo muito tempo depois de ter deixado de ser criança, era aquela escultura no alto da serra que me assegurava: "fique tranquilo, Rio de Contas está logo ali".

Mais tarde, vim a conhecê-la de perto: uma pedra, tinta branca, tinta vermelha, um balde preso por um pedaço de cano, uma calota de Fusca à guisa de brinco. Tinha tudo para ser um mero monumento, frio e sem encanto, não fosse a genialidade de um artista que deu à cidade uma referência inconfundível, quase uma marca registrada.
Mas eis que chega a notícia. Ela não está mais lá. Caiu, ou "foi caída", de cima do pequeno monte de onde via e saudava moradores, visitantes e os retirantes saudosos de sua terra natal. Terríveis constatações: as crianças não terão mais aquele brinquedo grande com que sonhar; os adultos deixarão de ver aquele monumento que lhes fazia lembrar da ingenuidade da sua infância, quando achavam que ali estava uma pessoa, que outra coisa não fazia senão vigiar a entrada da cidade. Para os que a conheceram, a Nega vai se tornar apenas uma lembrança, cada vez mais pálida; para os que não a conheceram, ficará a impressão de que se trata de uma lenda. Para mim, ficará a triste sensação de ter perdido algo que não sei explicar, mas que talvez eu possa definir como "a perspectiva do aconchego de quem sabe que está chegando em casa".

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