Domingo. Almoço de família. Aniversário. Todos presentes: primos,
primas, namoradas de primos, namorados de primas, namoradas de primas
e quejandos... Sogros, sogra (uma é mais que suficiente), pai, mãe,
empregada (ou, como se diz atualmente, "secretária"). Amigos, colegas
de curso, cunhada... E eis que, junto com a cerveja, que chega aos
poucos, começa a preleção.
É hora. Enquanto a feijoada não vem, que desça a cerveja gelada! É aí
que o concerto se inicia: a conversa, andante moderatto, piano, aos
poucos vai adquirindo um stacatto peculiar. Forte. Presto. Por
enquanto, nada que cause maiores dissonâncias: a sinfonia é harmônica,
e todos dela fazem parte.
Salame, limão, queijo, azeitona. Linguicinha. Whisky. Assim, assim, a
conversa vai rallentando. Enquanto isso, o da cappo se faz cada vez
mais presente. Aos poucos, os solistas vão se revezando, uns com mais
veemência que outros; porém, sem que nenhum deixe de fazer sua
performance. O stacatto se vai, dando lugar, inexoravelmente, às
quiálteras, acompanhadas de ligaduras às vezes incabíveis, numa
síncope que, cada vez mais, parece desencontrada aos ouvidos dos
transeuntes desavisados que dela não participam.
E necas de feijoada...
Vinho! Baco, mais uma vez, se faz presente. A harmonia se perde, e a
orquestra parece estar cada vez mais fragmentada, em pequenas câmaras,
de operetas particulares, cada uma no seu ritmo. As peças são
peculiares a cada grupo. Passa da hora de chegar a maestrina,
recompondo a ordem. E é o que se sucede: sincronicamente, todos
começam a fuga. Hora do rango! Chegou, ao contrário do que já
concluíra o senso comum, a feijoada.
Silêncio no recinto. Novo compasso, marcado tão somente pelo bater dos
pratos e talheres, destes entre si e destes naqueles. O coro cessou, e
nada indica que recomeçará da mesma forma que antes.
De fato: voltando-se ao tema, algo se perdeu. Silêncio de uma parte,
ruídos semelhantes a roncos de um lado, um coro em compasso
quaternário de outro, pausas previstas, mas não executadas, sons em
caminhar de semibreve. Por fim, alguns estrondos não totalmente
imprevistos, retirada em massa, e desfaz-se o heterogêneo grupo, tão
criteriosamente formado, decretando o fim da apresentação.
Pois bem: até o próximo domingo, talvez num outro endereço.
domingo, 13 de junho de 2010
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