domingo, 13 de junho de 2010

Aula de música

Domingo. Almoço de família. Aniversário. Todos presentes: primos,
primas, namoradas de primos, namorados de primas, namoradas de primas
e quejandos... Sogros, sogra (uma é mais que suficiente), pai, mãe,
empregada (ou, como se diz atualmente, "secretária"). Amigos, colegas
de curso, cunhada... E eis que, junto com a cerveja, que chega aos
poucos, começa a preleção.

É hora. Enquanto a feijoada não vem, que desça a cerveja gelada! É aí

que o concerto se inicia: a conversa, andante moderatto, piano, aos
poucos vai adquirindo um stacatto peculiar. Forte. Presto. Por
enquanto, nada que cause maiores dissonâncias: a sinfonia é harmônica,
e todos dela fazem parte.

Salame, limão, queijo, azeitona. Linguicinha. Whisky. Assim, assim, a

conversa vai rallentando. Enquanto isso, o da cappo se faz cada vez
mais presente. Aos poucos, os solistas vão se revezando, uns com mais
veemência que outros; porém, sem que nenhum deixe de fazer sua
performance. O stacatto se vai, dando lugar, inexoravelmente, às
quiálteras, acompanhadas de ligaduras às vezes incabíveis, numa
síncope que, cada vez mais, parece desencontrada aos ouvidos dos
transeuntes desavisados que dela não participam.

E necas de feijoada...


Vinho! Baco, mais uma vez, se faz presente. A harmonia se perde, e a

orquestra parece estar cada vez mais fragmentada, em pequenas câmaras,
de operetas particulares, cada uma no seu ritmo. As peças são
peculiares a cada grupo. Passa da hora de chegar a maestrina,
recompondo a ordem. E é o que se sucede: sincronicamente, todos
começam a fuga. Hora do rango! Chegou, ao contrário do que já
concluíra o senso comum, a feijoada.

Silêncio no recinto. Novo compasso, marcado tão somente pelo bater dos

pratos e talheres, destes entre si e destes naqueles. O coro cessou, e
nada indica que recomeçará da mesma forma que antes.

De fato: voltando-se ao tema, algo se perdeu. Silêncio de uma parte,

ruídos semelhantes a roncos de um lado, um coro em compasso
quaternário de outro, pausas previstas, mas não executadas, sons em
caminhar de semibreve. Por fim, alguns estrondos não totalmente
imprevistos, retirada em massa, e desfaz-se o heterogêneo grupo, tão
criteriosamente formado, decretando o fim da apresentação.

Pois bem: até o próximo domingo, talvez num outro endereço.

sábado, 12 de junho de 2010

E Rio de Contas perde um ícone.




Tinha nome e apelido. O nome de batismo: Escrava da Natureza. O apelido: Nega de Zofir. Eu, molequinho, quando acontecia de descer a serra com meus pais, sabia que estava chegando a Livramento quando via a cachoeira; e que Rio de Contas estava perto, quando via a Nega de Zofir, com seu gorro vermelho e cachimbo na boca. Mesmo muito tempo depois de ter deixado de ser criança, era aquela escultura no alto da serra que me assegurava: "fique tranquilo, Rio de Contas está logo ali".

Mais tarde, vim a conhecê-la de perto: uma pedra, tinta branca, tinta vermelha, um balde preso por um pedaço de cano, uma calota de Fusca à guisa de brinco. Tinha tudo para ser um mero monumento, frio e sem encanto, não fosse a genialidade de um artista que deu à cidade uma referência inconfundível, quase uma marca registrada.
Mas eis que chega a notícia. Ela não está mais lá. Caiu, ou "foi caída", de cima do pequeno monte de onde via e saudava moradores, visitantes e os retirantes saudosos de sua terra natal. Terríveis constatações: as crianças não terão mais aquele brinquedo grande com que sonhar; os adultos deixarão de ver aquele monumento que lhes fazia lembrar da ingenuidade da sua infância, quando achavam que ali estava uma pessoa, que outra coisa não fazia senão vigiar a entrada da cidade. Para os que a conheceram, a Nega vai se tornar apenas uma lembrança, cada vez mais pálida; para os que não a conheceram, ficará a impressão de que se trata de uma lenda. Para mim, ficará a triste sensação de ter perdido algo que não sei explicar, mas que talvez eu possa definir como "a perspectiva do aconchego de quem sabe que está chegando em casa".